
O cinema brasileiro teve uma segunda-feira marcada por impasse. Um de seus principais festivais esteve perto de sair do calendário de 2026. Durante a tarde, foi anunciado que o Festival de Cinema de Brasília, evento cinematográfico mais antigo do país, estava cancelado devido à falta de verbas, segundo informações da Rádio CBN.
No entanto, horas depois, a governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP/DF), afirmou em uma rede social que o festival está mantido:
“Está confirmada a realização da 59ª edição do Festival de Cinema de Brasília, evento marcado para 11 a 19 de setembro. Já determinei que a Secretaria de Economia providencie os recursos necessários para o evento”, escreveu Celina Leão em postagem no X.
Entenda o que deixou o Festival de Cinema de Brasília a ter risco de não ser realizado

O Festival de Cinema de Brasília tinha como seu principal patrocinador o Banco de Brasília (BRB). O banco lida com a pior crise de sua história e não divulga balanços há um ano, devido a transações malsucedidas com o Banco Master. Segundo o G1, mais cedo os organizadores foram informados de que não haveria condições de repasse de dinheiro público para a realização do festival.
A notícia repercutiu de maneira negativa entre a classe artística, e o Ministério da Cultura definiu como “um retrocesso do audiovisual brasileiro” o possível cancelamento. Horas depois, a governadora Celina Leão confirmou que o Festival de Cinema de Brasília será realizado.
Festival de Cinema de Brasília não foi realizado só em três anos

O Festival de Cinema de Brasília teve sua primeira edição em 1965. O histórico primeiro vencedor do Candango de Melhor Filme foi “A Hora e A Vez de Augusto Matraga”, de Roberto Santos. A obra, baseada no conto de João Guimarães Rosa, recebeu ainda os Candangos de Melhor Roteiro e Melhor Ator (para Leonardo Villar).
Fernanda Montenegro foi premiada com o Candango de Melhor Atriz por “A Falecida”, de Leon Hirzman. “O Circo”, de Arnaldo Jabor, recebeu o Candango de Melhor Curta-Metragem.
Nos anos seguintes, foram premiados “Todas As Mulheres do Mundo”, de Domingos Oliveira (1966), “Proezas de Satanás Na Vila do Leva-E-Traz”, de Paulo Gil Soares (1967), “O Bandido da Luz Vermelha” (1968), “Memória de Helena” (1969), “Os Deuses e Os Mortos”, de Ruy Guerra e “A Casa Assassinada”, de Paulo César Saraceni.
Festival de Cinema de Brasília foi interrompido durante Ditadura

O Festival de Cinema de Brasília ficou interrompido durante três anos. Em 1972, 1973 e 1974, os organizadores decidiram não realizá-lo em protesto à forte censura dos anos de chumbo.
As obras selecionadas eram cortadas ou vetadas pela ditadura miitar. Também havia proibição de filmes que traziam críticas sociais ou debates políticos.
Festival retorna em 1975

O Festival de Cinema de Brasília retornou após articulações na edição de 1975. O vencedor daquele ano foi “Guerra Conjugal”, de Joaquim Pedro de Andrade. A obra ainda venceu os prêmios de Melhor Direção, Melhor Atriz (para Elza Gomes) e Melhor Montagem (para Eduardo Escorel).

Outras obras de prestígio no país tiveram notoriedade em Brasília: “Xica da Silva”, de Cacá Diegues (1976), “Tenda dos Milagres”, de Nelson Pereira dos Santos (1977), “Tudo Bem”, de Arnaldo Jabor (1978) e “Muito Prazer”, de David Neves (1979).

A década seguinte iniciou com destaque para “Iracema, Uma Transa Amazônica”, de Orlando Senna e Jorge Bodanzky (1980). A obra rendeu prêmio para Edna de Cássia, em seu único trabalho como atriz.
Posteriormente, receberam o Candango de Melhor Filme “O Homem do Pau-Brasil”, de Joaquim Pedro de Andrade (1981), “Tabu”, de Júlio Bressane (1982), “O Mágico e O Delegado”, de Fernando Coni Campos” (1983), “Nunca Fomos Tão Felizes”, de Murilo Salles (1984), “A Hora da Estrela”, de Suzana Amaral (1985), “A Cor do Seu Destino”, de Jorge Durán (1986) e”Anjos da Noite”, de Wilson Barros (1987).
Em 1988, houve uma inédita vitória para dois filmes. “Memória Viva”, de Octávio Bezerra”, e “O Mentiroso”, de Werner Schunemann, foram premiados com o Candango. No ano de 1989, o documentário “Que Bom Te Ver Viva”, de Lucia Murat, foi o vencedor.
Do fim da Embrafilme à Retomada, Festival de Cinema de Brasília segue firme

A década de 1990 foi marcada por dificuldades em relação ao cinema brasileiro. Empresa de economia mista estatal que era responsável que auxiliava na produção e na distribuição de filmes do país, a Embrafilme foi extinta em 1990, durante o governo de Fernando Collor de Mello. O Ministério da Cultura passou a ser uma Secretaria de Cultura.
À época, o número de filmes brasileiros foi reduzido drasticamente. Mesmo assim, o Festival de Cinema de Brasília continuou a ser realizado e a apresentar obras expressivas. Em 1990, o vencedor do Candango de Melhor Filme foi “O Beijo 2348/72”, de Walter Rogério. “O Corpo”, de José Antônio Garcia, venceu a edição de 1992. No ano de 1992, o Candango foi para “A Maldição de Sanpaku”, de José Joffily. No ano de 1993, “Alma Corsária”, de Carlos Reichenbach, foi premiado em Brasília. Em 1994, André Luiz de Oliveira recebeu prêmio por “Louco Por Cinema”.
O Brasil viu seu público ter alguns números expressivos com “Lamarca” em 1994. E em 1995 teve seu marco da Retomada com “Carlota Joaquina – A Princesa do Brazil”, de Carla Camurati”. A edição do Festival de Cinema de Brasília refletiu o novo momento do cinema brasileiro com o Candango de Melhor Filme para “O Judeu”, de Jom Tob Azulay.
Em 1996, “Baile Perfumado”, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, foi premiado em Brasília. Na edição de 1997, houve empate entre “Miramar”, de Júlio Bressane, e “Anahy de Las Misiones”, de Sérgio Silva. No ano seguinte, “Amor & Cia.”, de Helvécio Ratton, recebeu o Candango de Melhor Filme. Em 1999, o premiado principal foi “Santo Forte”, de Eduardo Coutinho.
Filmes aclamados fazem história no início do milênio

O ano 2000 foi histórico para um clássico do cinema brasileiro. Laís Bodanzky se tornou a primeira mulher que, como diretora, viu uma obra ser consagrada com o Candango de Melhor Filme: “Bicho de Sete Cabeças”, estrelado por Rodrigo Santoro e que tem no elenco Othon Bastos e Cássia Kiss. A obra também foi a priimeira vencedora do Prêmio Grande Otelo.
Grandes diretores e grandes safras marcaram a década em Brasília. Em 2001, “Lavoura Arcaica”, filme de Luiz Fernando Carvalho a partir do livro de Raduan Nassar, dividiu o prêmio com “Samba Riachão”, documentário de Jorge Alfredo.
O cineasta pernambucano viu duas obras suas receberem o Candango de Melhor Filme: “Amarelo Manga”, em 2002, e “Baixio das Bestas”, no ano de 2006. Um dos ícones do Cinema Novo, Júlio Bressane voltou a ser consagrado no Festival de Brasília, ao receber o Candango em 2003, por “Filme de Amor”, e 2007, por “Cleópatra”.
Eduardo Coutinho viu seu filme “Peões” ser premiado na edição de 2004 e, em 2005, foi a vez de Edgar Navarro se conaagrar por “Eu Me Lembro”. Em 2008, Kiko Gofman se destacou por “Eu Me Lembro”, e em 2009 “É Proibido Fumar”, de Anna Muylaert, ganhou o Candango de Melhor Filme.
A década ficou marcada por outro motivo: em 2007 o festival passou a se tornar um “patrimônio imaterial”.
Década de 2010: pluralidade marca festival

A década de 2010 trouxe pluralidade para o Festival de Cinema de Brasília. “O Céu Sobre Os Ombros”, de Sérgio Vieira, foi o primeiro premiado. No ano seguinte, a consagrada Tata Amaral recebeu o Cangando por “Hoje”.
Diretores pernambucanos tiveram obras premiadas. Em 2012, Marcelo Lordello recebeu o Candango por “Eles Voltam”, ao lado do seu conterrâneo Marcelo Gomes, que esteve à frente de “Era Uma Vez Eu, Verônica”. “Otto, de Cao Guimarães, recebeu o prêmio de Melhor Documentário. No ano de 2015, Cláudio Assis se consagrou pela terceira vez, graças ao filme “Big Jato”.
Paula Gaitán viu seu “Exilados no Vulcão” ser o premiado de 2013. “Branco Sai, Preto Fica”, de Adriley Queiroz, recebeu o prêmio de 2014. “A Cidade Onde Envelheço”, de Marília Rocha, foi o vencedor de 2016. O consagrado “Arábia”, de Affonso Uchôa e João Dumans em 2017.
Diretor de destaque em Minas Gerais, André Novais de Oliveira ganhou projeção com o Candango de Melhor Filme para “Temporada”, em 2019.
Festival realizado em meio à pandemia

Mesmo em meio à pandemia de Covid-19, o Festival de Cinema de Brasília se manteve no calendário. O evento foi realizado de maneira online, assim como a programação. “Por Onde Anda Makunaíma?”, documentário de Rodrigo Séllos, recebeu o Candango de Melhor Filme em 2020. “República”, de Grace Passô, foi premiado com o Candango de Melhor Curta-Metragem.
A edição de 2021 também foi realizada no formato online. O documentário “Saudade do Futuro”, de Anna Azevedo, foi o vencedor do Troféu Candango. No ano seguinte, o festival passou a ser em formato presencial. “Em 2022, “A Invenção do Outro”, de Bruno Jorge, saiu consagrado.
Em 2023, “Mais Um Dia, Zona Norte”, de Allan Ribeiro, recebeu o prêmio de Melhor Filme. O filme pernambucano “Salomé”, de André Antônio, se consagrou em 2024.
Filme gaúcho se consagrou na edição de 2025

A edição de 2025 marcou a consagração de “Futuro Futuro”. A obra recebeu os prêmios de Melhor Filme, Melhor Roteiro, Melhor Montagem e Menção Honrosa (para José Maria Pescador, ator que interpreta K, protagonista do filme).
O filme combina ficção científica, questões ambientais, a crise da imagem e as desigualdades sociais em uma narrativa ambientada em um futuro próximo.