No Brasil, a ligação entre poder político e criminalidade – especialmente em casos com impacto direto na segurança pública – tem sido tema de intensos debates, mobilizações sociais e investigações judiciais. Embora muitos casos de corrupção financeira dominem as manchetes, há exemplos emblemáticos de políticos condenados por crimes que extrapolam a corrupção tradicional, envolvendo homicídio, organização criminosa ou relações com grupos armados.

Em uma democracia que luta diariamente com altos índices de violência e fragilidades institucionais, conhecer quem são esses políticos condenados e o que aconteceu em cada caso é fundamental para a compreensão da crise de segurança pública no país.
Leia Mais:
- Os principais desafios da segurança pública no Brasil
- A influência das redes sociais na percepção de segurança pública
- Tecnologias inovadoras no combate ao crime: como elas estão transformando a segurança pública
Relembre figuras públicas que tiveram sua trajetória política marcada por crimes graves associados à violência ou à criminalidade – muitos com repercussão na segurança da sociedade como um todo.
Flordelis dos Santos de Souza: assassinato e prisão de ex-deputada federal
Um dos casos mais chocantes envolvendo política e violência no Brasil foi o da ex-deputada federal Flordelis dos Santos de Souza. Conhecida por sua trajetória como cantora gospel e por adotar dezenas de crianças, Flordelis foi condenada em novembro de 2022 pela Justiça do Rio de Janeiro pelo assassinato de seu marido, o pastor Anderson do Carmo, morto com disparos de arma de fogo em 2019.
Embora inicialmente Flordelis tenha utilizado de sua imunidade parlamentar para evitar a prisão, seu mandato foi cassado em 2021 por quebra de decoro parlamentar, o que permitiu o prosseguimento da ação penal. A sentença resultou em mais de 50 anos de prisão, incluindo acusações de tentativa de homicídio, associação armada e falsificação.

O caso expôs uma face sombria da política brasileira: a de alguém que ocupava um cargo público e era responsável por uma morte brutal no ambiente doméstico. Um crime que repercutiu na discussão sobre violência e impunidade, em especial em casos envolvendo figuras públicas.
Hildebrando Pascoal: o ‘Deputado da Motosserra’ e crimes de homicídio
Outra figura que simboliza a perigosa sobreposição entre poder político e violência armada é Hildebrando Pascoal, ex-deputado federal pelo Estado do Acre. Conhecido popularmente como o “Deputado da Motosserra”, Pascoal foi condenado por liderar um grupo de extermínio, tráfico de drogas, corrupção eleitoral e uma série de homicídios com requintes de crueldade.

Detido desde o fim dos anos 1990, Pascoal foi responsabilizado por crimes que incluíram tortura e execução de vítimas com uso de motosserra – daí seu apelido macabro – e formação de quadrilha que operava em conluio com policiais militares sob sua influência.
Sua trajetória também influenciou reformas institucionais importantes: a Emenda Constitucional nº 35/2001, que facilitou o processo de investigação e responsabilização de parlamentares ao extinguir a necessidade de autorização prévia das casas legislativas para processar deputados federais e senadores.
‘Motivação política’: caso Talvane Albuquerque
O ex-deputado Talvane Albuquerque foi condenado em 2012 pelo Tribunal do Júri da Justiça Federal de Alagoas a 103 anos e 4 meses de prisão como mandante das mortes da deputada Ceci Cunha, do marido e de mais dois parentes dela. Ele conseguiu progressão de pena para o regime semiaberto e deixou o presídio onde cumpria a sentença em outubro de 2021.
De acordo com o Ministério Público, o crime teve motivação política, pois Talvane Albuquerque queria ocupar o posto na Câmara dos Deputados para retardar o julgamento de outros processos a que respondia na Justiça. Ele foi condenado a pagar R$ 100 mil de indenização aos filhos de Ceci.

A deputada foi assassinada em dezembro de 1998, pouco após ser diplomada no cargo. Ela visitava a irmã, Claudinete dos Santos Maranhão, que havia acabado de ganhar um bebê. Os assassinos invadiram a varanda onde todos conversavam e dispararam dezenas de tiros. Além de Ceci, foram mortos seu marido, Juvenal Cunha; o cunhado, Iran Carlos Maranhão; e a mãe do cunhado, Ítala Maranhão. Apenas a irmã da política e o bebê escaparam com vida.
Caso Telmário Mota
O ex-senador Telmário Mota, de Roraima, foi condenado à pena de oito anos e dois meses por estuprar a própria filha. À época do crime, em 2022, a vítima tinha 17 anos. Além disso, é suspeito de ser o mandante do homicídio de sua ex-mulher, Antônia Araújo de Sousa, de 52 anos. Ele ocupou uma cadeira no Congresso Nacional entre 2015 e 2022, mas não foi reeleito nas eleições do ano passado.

Antônia foi morta com um tiro na cabeça no dia 29 de setembro de 2023, por volta das 6h30, quando saía de casa para trabalhar, por volta das 6h30, no bairro Senador Hélio Campos, zona Oeste de Boa Vista, capital de Roraima. O crime foi executado por duas pessoas em uma moto.
A ex-mulher era uma das principais testemunhas sobre as investigações que envolviam uma acusação de estupro contra o ex-senador, segundo a Justiça. A denúncia foi feita pela filha dele, em 2022. Ela foi assassinada três dias antes de uma audiência sobre o caso.
Envolvimento político na morte de Marielle Franco: prisões e investigações
Embora Ronnie Lessa não seja um político, o enquadramento desse caso ilustra como a política e a criminalidade armada podem colidir de forma letal. Lessa, ex-policial militar, foi condenado por tráfico internacional de armas e, em 2025, por duplo homicídio, acumulando mais de 190 anos de pena combinada em processos estaduais e federais.
Essas condenações ganharam ainda maior atenção no contexto da morte da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes, em março de 2018. O crime gerou comoção nacional e intensas investigações sobre possíveis mandantes políticos ou operadores ligados a milícias.

Em 2024, políticos como Domingos Brazão e seu irmão Chiquinho Brazão, além de um ex-chefe de polícia, foram presos sob suspeita de envolvimento na organização do assassinato, em uma ação federal que alterou o cenário político fluminense ao revelar possíveis nexos entre mandantes e milícias organizadas.
O caso segue em desdobramento judicial, mas já representou um dos mais significativos episódios em termos de conexões entre crime organizado e mandantes ligados ao aparato político – um alerta grave para a segurança pública e para a luta contra milícias no Brasil.
Casos internacionais: reflexos e comparações regionais
Vale mencionar como a região latino-americana também enfrenta casos de líderes políticos condenados por crimes que impactam seriamente a segurança pública. Por exemplo, o ex-presidente colombiano Álvaro Uribe foi condenado por abuso de autoridade e suborno, colocando seu nome na lista de ex-chefes de Estado com condenações criminais – um sinal de que nem mesmo as maiores autoridades gozam de imunidade absoluta quando envolvidas em práticas ilegais.
Esse contexto regional ressalta a importância de instituições robustas de Justiça capazes de enfrentar o crime – inclusive quando praticado ou ordenado por quem deveria zelar pela lei e pela ordem.
A importância de responsabilizar políticos por crimes violentos
O enfrentamento de políticos envolvidos em crimes graves, como homicídio, organização criminosa ou atentados às instituições, é um marco essencial para a consolidação democrática e para a segurança pública. Especialistas, como juristas e autoridades do Ministério Público, defendem que a responsabilização judicial de líderes eleitos aumenta a confiança nas instituições e reduz a sensação de impunidade que alimenta a violência.
Segundo o jurista Fabiano Carniel, ao jornal O Estado de S. Paulo, “políticos que infringem a lei de forma violenta ou conspiram contra a ordem pública não devem ter tratamento diferenciado. A Justiça precisa ser igual para todos”. Essa é uma premissa que contribui para a segurança de toda a sociedade, diminuindo a erosão institucional que alimenta medo e insegurança generalizados.