À medida que o Brasil avança para o ano eleitoral de 2026, um tema tem ganhado centralidade no debate público e político: a segurança pública. A combinação entre o aumento da percepção de violência, o impacto do crime organizado em comunidades e dados que mostram insegurança generalizada tem movimentado eleitores, partidos e especialistas, a ponto de muitos analistas considerarem o tema um dos decisores das eleições presidenciais e legislativas.

1 – Segurança Pública em alta: contexto e percepção
Percepção de violência em crescimento
Diversas pesquisas recentes mostram que os brasileiros estão cada vez mais preocupados com a violência e a insegurança:
- Um levantamento do Instituto Datafolha em 2025 indica que 58% dos brasileiros acreditam que a criminalidade aumentou nos últimos 12 meses – uma percepção compartilhada por diferentes faixas etárias e classes sociais.
- Outra pesquisa, da Quaest, aponta que 29% dos brasileiros consideram a violência como o principal problema do país, à frente de temas como economia, saúde e educação.
Esses dados refletem a sensação de insegurança vivida no cotidiano, um fenômeno que, ainda que nem sempre refletido proporcionalmente nas estatísticas criminais mais amplas, tem impacto direto no comportamento eleitoral dos cidadãos e no debate público.
Contradições nos dados oficiais
Apesar da percepção de insegurança, dados oficiais mostram nuances importantes:
- O Mapa da Segurança Pública 2025 indica queda de 6,3% nos homicídios dolosos entre 2023 e 2024.
- O Atlas da Violência 2025 também registra a menor taxa de homicídios em 11 anos (21,2 por 100 mil habitantes em 2023), embora ainda com taxas elevadas e desigual distribuição regional.
Essa aparente discordância – percepção crescente de insegurança versus queda em alguns indicadores criminais – não diminui a importância do tema no discurso público, porque a sensação de medo muitas vezes se sobrepõe à realidade estatística nas escolhas políticas das pessoas.

2 – Crime organizado e territórios sob domínio
Domínio territorial de facções e milícias
Uma dimensão que reforça a centralidade da insegurança é o domínio territorial de organizações criminosas no Brasil. Relatórios recentes apontam que:
- Pelo menos 72 facções criminosas e milícias influenciam a vida de cerca de 23 milhões de brasileiros, com presença explícita ou convivência próxima do crime organizado em áreas urbanas e periurbanas.
- Esses grupos muitas vezes funcionam como “governanças paralelas”, controlando rotas de narcotráfico, atividades ilegais e impondo regras nas comunidades, o que afeta diretamente a sensação de ordem e segurança no dia a dia.
Esse cenário fornece um pano de fundo poderoso para discursos políticos que prometem “lei e ordem”, influenciando percepções eleitorais mesmo em contextos em que os indicadores criminais oficiais ofereçam nuances diferentes.
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A atuação estatal e combate ao crime organizado
No campo das políticas públicas, o governo federal e unidades da federação têm promovido iniciativas para combater o crime organizado:
- A Polícia Federal apreendeu mais de R$ 9,6 bilhões em bens e ativos ligados às facções criminosas em 2025, com atuação integrada das forças federais e rodoviárias.
- A atuação conjunta tem sido tema de debates no Congresso Nacional, com a tramitação de projetos como o chamado PL Antifacção, que visa endurecer a resposta legal ao crime organizado.
Esses movimentos tanto reagem à pressão social quanto alimentam narrativas políticas sobre a necessidade de maior firmeza no enfrentamento da violência.

3 – Estudos acadêmicos ligando vitimização e comportamento eleitoral
Medo de crime, sentimento de insegurança e escolhas políticas
Pesquisas acadêmicas sugerem que experiências pessoais ou coletivas de crime e insegurança podem moldar atitudes políticas:
- Estudos internacionais e brasileiros destacam que a exposição ao crime e à violência pode aumentar o apoio a candidatos de “lei e ordem” e a políticas punitivas mais rígidas, promovendo posições autoritárias em algumas dimensões, ainda que não necessariamente reduzindo o apoio à democracia como sistema.
- Dissertações e trabalhos de cientistas políticos apontam que no Brasil há uma ascensão de candidatos com histórico em segurança (policiais, militares), cujas campanhas exploram a temática da violência como central na plataforma eleitoral.
Esse vínculo entre medo de crime e preferência por candidatos “fortes” tem sido documentado em contextos diversos e mostra que o medo faz parte do repertório cognitivo de muitos eleitores, influenciando diretamente a escolha de quem os representará.
Eleições e crime organizado: influência e riscos
Além da mera preferência por políticas punitivas, outra área de pesquisa aponta que em territórios onde as facções dominam, especialmente em contextos urbanamente frágeis, podem ocorrer fenômenos como:
- Gatekeeping eleitoral, em que grupos criminosos influenciam quem pode concorrer e quem recebe votos, diminuindo a competição genuína.
- Clientelismo armado, em que organizações criminosas se comportam como “intermediários políticos”, oferecendo benefícios e pedindo apoio político em retorno.
Tais mecanismos mostram que a criminalidade pode não apenas moldar preferências eleitorais, mas também influenciar diretamente a dinâmica eleitoral em certas áreas, trazendo desafios sérios à integridade do processo democrático.
4 – Como isso muda campanhas e agendas públicas
Campanhas focadas em “lei e ordem”
- Tanto partidos como candidatos já sinalizam que a segurança pública será um tema-chave nas eleições de 2026:
- Discursos políticos têm enfatizado medidas de endurecimento, reforço policial e maior coordenação entre União, estados e municípios como pilares da estratégia de combate ao crime.
Governadores e pré-candidatos recorrem frequentemente a temas simbolicamente ligados à segurança para consolidar apoio, especialmente em regiões onde a sensação de insegurança é maior.
A resposta das instituições públicas
Não só campanhas eleitorais, mas também agendas públicas estão sendo moldadas por essa centralidade:
- O Senado Federal mobilizou debates e aprovou projetos relacionados ao enfrentamento ao crime organizado.
- Governadores criaram iniciativas interestaduais para cooperação policial e troca de informações.
Assim, o tema transborda a mera retórica eleitoral e começa a reconfigurar diálogos políticos, alianças partidárias e propostas de políticas públicas, apontando para uma agenda legislativa centrada em segurança nos próximos anos.

5 – Riscos democráticos: quando a segurança vira moeda política
Embora a segurança pública seja, em absoluto, um tema legítimo para o debate democrático, a sua instrumentalização eleitoral apresenta riscos:
- Normalização de medidas autoritárias
Estudos levantam preocupações de que o medo do crime pode levar ao apoio a medidas de força ou práticas que limitam liberdades civis, sem necessariamente fortalecer a democracia como sistema.
- Estigmatização e exclusão social
Campanhas que exploram a insegurança podem reforçar estigmas contra determinados grupos socioeconômicos e raciais, contribuindo para divisões sociais. Isso pode enfraquecer coesão social e prejudicar políticas públicas que abordem as causas estruturais da violência.
- Fragilização institucional
Transformar segurança pública em moeda eleitoral pode levar a promessas inalcançáveis ou à erosão de instituições de controle e responsabilização, especialmente se a agenda for moldada por medidas populistas de curto prazo, sem foco em soluções estruturais.
Por que 2026 pode ser o ano da segurança pública
O avanço da percepção de insegurança, o papel central que a violência e o crime organizado desempenham no cotidiano de milhões de brasileiros, e evidências acadêmicas que ligam experiências de violência à escolha política configuram um cenário em que a segurança pública não será apenas um tema entre tantos nas eleições de 2026, mas sim um dos fatores decisivos da disputa eleitoral.
A medir pelas pesquisas de opinião, debates legislativos e tendências nas campanhas, é provável que os eleitores continuem a avaliar candidatos pela capacidade de oferecer respostas concretas ao problema da criminalidade. No entanto, essa ênfase também requer vigilância: para além das promessas de toga e fuzil, uma democracia vibrante precisa de políticas públicas bem formuladas, respeito aos direitos humanos e fortalecimento das instituições que protegem tanto a segurança quanto as liberdades civis.
Em suma, o eleitor de 2026 quer segurança, mas, para que ela esteja verdadeiramente à altura das expectativas, ela precisa ser tratada como um tema de políticas públicas com base em evidências, não apenas como slogan de campanha.