No Estado do Rio de Janeiro, a violência urbana continua como um dos temas centrais do debate público, não apenas pela intensidade dos números, mas pelo impacto direto na vida cotidiana, segurança, economia e, especialmente, na política municipal. Os três maiores colégios eleitorais do estado – a cidade do Rio de Janeiro, a Baixada Fluminense (com destaque para Duque de Caxias e Nova Iguaçu, além de municípios como Belford Roxo, Queimados, São João de Meriti, Mesquita e Nilópolis) e São Gonçalo – concentram mais de 50% dos eleitores e lideram, também, em desigualdades e indicadores de violência social.
Veja como o mapa da violência se reflete nesses territórios e como isso influencia perfis políticos, administrações municipais e o jogo de forças nas câmaras legislativas locais.

Estudos recentes e relatórios públicos mostram que a violência armada concentra-se justamente nas regiões mais populosas da Grande Rio, com a capital, Baixada Fluminense e São Gonçalo no centro desse mapa. Segundo o Instituto Fogo Cruzado, no primeiro semestre de 2025, a cidade do Rio de Janeiro foi responsável por mais de 800 tiroteios, concentrando mais de 68% dos casos violentos na região metropolitana, seguida por São Gonçalo e Duque de Caxias entre os municípios mais afetados.
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O Atlas da Violência 2024 mostra ainda que cidades como Itaguaí, Queimados e Duque de Caxias têm algumas das maiores taxas de homicídios por 100 mil habitantes do estado, com a Baixada Fluminense dominando negativamente o ranking de violência. Municípios como Magé, Mesquita, Nova Iguaçu, Belford Roxo e São João de Meriti também figuram entre os mais violentos.
Dados como esses reforçam o que especialistas apontam: a violência no Estado está diretamente associada a contextos de desigualdade, precariedade urbanística e ausência do Estado em serviços básicos, criando condições para a expansão de organizações criminosas e milícias que perseguem tanto o controle territorial quanto político. Pesquisadores alertam que na Baixada Fluminense, especificamente, a atuação desses grupos tem se refletido até em casos de violência política e eleitoral, com atentados ou ameaças a candidatos e lideranças.
Perfil político dos três principais colégios eleitorais
- Cidade do Rio de Janeiro
Prefeito atual: Eduardo Paes (PSD), reeleito para um novo mandato com mais de 60% dos votos válidos em 2024, consolidando uma liderança estável na capital.
Paes é um político com trajetória longa na cidade, tendo já exercido mandatos nos anos recentes e implementado políticas voltadas a urbanismo, mobilidade e programas sociais, entre outros. Seu partido, o PSD, hoje tem forte presença na gestão municipal, embora a Câmara Municipal do Rio seja marcada por fragmentação, com diversas legendas representadas, desde partidos de centro-esquerda a centro-direita, exigindo negociações constantes para aprovar pautas.

Diferente de alguns municípios da Baixada, a capital tem recursos mais robustos e maior capacidade administrativa, mas continua enfrentando desafios como desigualdade, violência armada e precariedade em áreas periféricas e favelas, onde a presença do Estado é mais frágil.
2. Baixada Fluminense (Duque de Caxias, Nova Iguaçu e entorno)
A Baixada Fluminense, composta por grandes municípios com enorme contingente eleitoral, é um território complexo. Ali, políticas públicas e violência têm forte interseção, tanto no tráfico de drogas quanto no crime eleitoral.
Duque de Caxias: o atual prefeito, Netinho Reis (MDB), assumiu em 2025 após ser eleito municipalmente. A Câmara Municipal tem forte presença de partidos de centro e centro-direita, com negociações constantes para aprovar leis orçamentárias e políticas urbanas locais.
Nova Iguaçu: é governada por Eduardo “Dudu” Reina (PP), que obteve uma vitória expressiva com ampla votação nas últimas eleições. Esta cidade, como outras da região, enfrenta desafios relacionados à violência urbana e falta de oportunidades, o que molda o debate político local. Olhando para a configuração da Câmara após a eleição de 2024, o partido de Dudu elegeu três vereadores, mesmo número do PL e do Solidariedade, partidos com mais parlamentares eleitos na Câmara de Nova Iguaçu. No entanto, políticos que fazem parte da coligação de Dudu Reina foram eleitos massivamente: dos 23 parlamentares da cidade, 20 (86%) são da aliança do prefeito eleito.

Outros municípios da Baixada, como Belford Roxo, Mesquita, Queimados, Nilópolis e São João de Meriti, alternam lideranças locais de partidos como PT, PSB, PSOL e MDB, refletindo diversidade ideológica, mas todos convivem com desafios semelhantes de insegurança, serviços públicos precários e forte pressão social por políticas de segurança pública.
Em termos de violência política, relatórios apontam registros de crimes eleitorais e execuções de lideranças na Baixada, levantando alertas de cientistas políticos sobre a atuação de grupos criminosos em contextos eleitorais para intimidar ou influenciar resultados.
- São Gonçalo
São Gonçalo, atrás apenas da Baixada em número de eleitores fora da capital, tem sofrido com altos índices de violência armada e homicídios. O cenário político local costuma ser competitivo, com alternância de partidos no poder municipal e um legislativo multipartidário. A violência, tanto urbana quanto política, influencia campanhas e prioridades das campanhas eleitorais.
Câmaras municipais: pluralidade e desafios de governabilidade
Tanto na capital quanto nos municípios da Baixada e em São Gonçalo, as câmaras municipais refletem a fragmentação política brasileira: nenhuma legenda domina de forma absoluta nessas casas legislativas. No Rio, o PSD tem forte presença, mas precisa dialogar com vereadores de outras legendas para aprovar projetos.
Em Duque de Caxias, a presença de vereadores eleitos por partidos tradicionais e menores também exige alianças e negociações para avançar pautas no Legislativo. Situação semelhante se repete em Nova Iguaçu e São Gonçalo, onde partidos regionais e nacionais disputam espaço, representando diversas correntes políticas e interesses locais.
Conexões entre violência, política e sociedade
Especialistas em segurança pública destacam que a violência no Rio de Janeiro não é distribuída de forma homogênea: ela se concentra onde há maior vulnerabilidade socioeconômica e menor presença institucional. Isto tem impacto direto nas políticas municipais e estaduais, afetando prioridades como segurança, emprego, educação e habitação.

A evolução dos indicadores criminais também é um fator relevante. Apesar de uma queda recente nos homicídios em 2024 no Estado do Rio, o número absoluto ainda é alto, mostrando que o problema persiste como prioridade de políticas públicas.
Mapa da violência e mapa eleitoral são espelhos que se refletem. Nas principais áreas do Rio de Janeiro, a violência molda debates políticos, prioridades de gestão e até o perfil dos eleitos. Com ampla diversidade partidária e desafios de governabilidade, a capital, São Gonçalo e a Baixada Fluminense enfrentam, em suas diferentes escalas, uma mesma urgência: tornar a segurança pública, a inclusão social e a governança mais eficazes para as populações que mais sofrem com a insegurança — e ao mesmo tempo fortalecer a democracia local contra pressões antidemocráticas e violência política.