No Brasil e no mundo, o fenômeno da institucionalização do crime organizado – ou seja, a infiltração de facções criminosas em instituições sociais, políticas e econômicas – deixou de ser uma ameaça abstrata para se tornar uma realidade documentada por autoridades, promotores, investigadores e especialistas em segurança pública. Casos e padrões comprovam essa penetração: desde o financiamento de campanhas políticas até operações de lavagem de dinheiro por meio de igrejas e empresas legítimas. Veja como o crime organizado extrapola o submundo para agir dentro das instituições formais, comprometendo a governança democrática e a confiança pública.

Facções no Brasil: um cenário complexo e multifacetado
As facções criminosas brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), evoluíram de organizações centradas em presídios para redes transnacionais com ramificações no sistema financeiro formal, contratos públicos e influências políticas indiretas. Pesquisas da Universidade de São Paulo (USP) apontam que existem dezenas de grupos catalogados como facções, muitos com identidade própria e presença além das prisões, atuando em territórios urbanos e rurais em todo o país.
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Autoridades brasileiras já alertam para o fato de que essas organizações criminosas investem em lavagem de dinheiro, apoio a candidaturas e dominância econômica como estratégias de expansão e sobrevivência. Segundo um documento recente de comissões legislativas, evidências apontam que o PCC teria movimentado bilhões para apoiar candidaturas em 2023, criar instituições financeiras de fachada e comprar apoio político durante eleições.
O promotor Lincoln Gakiya, que investiga PCC e outras facções, alerta que essa infiltração inclui financiamento de campanhas, contratos públicos e presença em setores econômicos formais, sugerindo que, em vários municípios, o crime organizado busca dominar parte do poder público para viabilizar negócios com o Estado.
Igrejas e lavagem de dinheiro: o uso do sagrado para fins ilícitos
Uma das formas mais controversas de penetração institucional é o uso de igrejas e organizações religiosas como mecanismos de lavagem de dinheiro. Investigações recentes, inclusive da chamada Operação Plata, mostraram que líderes vinculados a facções criaram ou utilizaram templos religiosos para legitimar recursos provenientes de atividades criminosas, sobretudo do tráfico de drogas. A falta de normativas que exijam a identificação dos doadores e a rastreabilidade das “doações de fé” facilita a ocultação de recursos ilícitos sob o disfarce de dízimos e ofertas.
Relatórios do Ministério Público e estudos acadêmicos apontam que figuras ligadas ao PCC teriam movimentado milhões de reais por meio de igrejas evangélicas, aproveitando a imunidade tributária e a falta de fiscalização rigorosa sobre doações e finanças dessas instituições. Acadêmicos como o jornalista Bruno Paes Manso afirmam que o crime começou a usar templos religiosos não apenas para lavar dinheiro, mas para construir uma imagem de legitimidade social em comunidades pobres.

Um caso notório envolveu Valdeci Alves dos Santos, o “Colorido”, líder do PCC, que estruturou um esquema sofisticado usando sete igrejas evangélicas de fachada no Rio Grande do Norte para lavar mais de R$ 200 milhões provenientes do tráfico.
Empresas e economia formal: infiltração além do submundo
Além das igrejas, facções brasileiras têm sido associadas à infiltração em setores econômicos formais, como postos de gasolina, concessionárias, transporte coletivo e agronegócio – frequentemente por meio de empresas de fachada ou laranjas. Segundo investigações do Ministério Público de São Paulo, o PCC já estaria presente em pelo menos 15 setores da economia formal, usando essas empresas tanto para lavar dinheiro quanto para obter lucro em atividades aparentemente legítimas.
Setor de Combustíveis: a Operação Carbono Oculto da Polícia Federal revelou um esquema do PCC para se infiltrar na produção e distribuição de combustíveis, adulterando produtos e comprando postos de gasolina, movimentando bilhões de reais.
Controle de Mercados e Setores: as facções operam como verdadeiras empresas, com hierarquia e divisão de tarefas, infiltrando-se em diversos setores da economia, como o mercado financeiro e a indústria, para sonegar impostos e dominar mercados.

Casos documentados também incluem suspeitas de incêndios criminosos em canaviais para pressionar proprietários a venderem suas terras e usos de empresas de transporte para contratos públicos milionários, em situações que levantam sérias questões sobre compliance e integridade corporativa.
Grupos criminosos infiltrados na política
A infiltração na política é uma das ameaças mais graves à democracia, com o objetivo de controlar decisões institucionais e obter proteção.
Financiamento de campanhas e apoio eleitoral: facções financiam candidatos e mobilizam votos em troca de favores, como a facilitação de contratos públicos e a interferência em políticas de segurança.
Captura de contratos públicos: investigações apontam casos de prefeituras e câmaras municipais cooptadas, onde as facções visam à captura de contratos milionários em áreas como saúde, educação e infraestrutura.
Infiltração de agentes públicos: membros de facções ou pessoas a elas ligadas conseguem se eleger vereadores, prefeitos ou atuar diretamente na máquina pública, usando suas posições para proteger os interesses do crime organizado.
Política e crime: uma história global
A infiltração de grupos criminosos na política não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. No mundo, casos históricos como o Colombian parapolitics scandal revelaram como políticos eleitos mantiveram ligações com grupos paramilitares, com dezenas de legisladores investigados e condenados por colaboração com organizações armadas ilegais.
Na Itália, grupos mafiosos como a Sicilian Mafia usam tradições de clientelismo e controle de votos para influenciar eleições e obter proteção política há mais de um século. Outro exemplo europeu foi a investigação conhecida como Mafia Capitale, em Roma, na qual membros de uma organização criminosa se infiltraram em contratos públicos e corrupção municipal, envolvendo políticos e empresários locais.
Estudos acadêmicos ressaltam que a lógica é semelhante: organizações criminosas buscam sempre acesso a decisões políticas, contratos públicos e proteção legal, recorrendo a financiamento de campanhas, alianças e coerção para moldar o ambiente institucional a seu favor.
Impactos e respostas institucionais
A infiltração do crime organizado em instituições tem efeitos profundos. Ao se infiltrar em igrejas, empresas e estruturas políticas, essas organizações minam a confiança pública, corrompem a integridade de eleições e leis e distorcem mecanismos de governança essenciais para democracias saudáveis.
Especialistas defendem medidas como a tipificação legal robusta de “crime organizado institucional”, mecanismos de compliance e transparência em setores vulneráveis (como igrejas e partidos políticos), além de uma maior integração entre polícias e órgãos investigativos para desarticular essas redes antes que se consolidem dentro da máquina estatal.
Como ‘narcoestado’, termo usado por promotores, as instituições podem passar a depender de dinheiro ilegal se não houver resposta coordenada do Estado e da sociedade para fechar as brechas exploradas por esses grupos.