
Em meio a lembranças nas ruas, nos blocos e nos desfiles de escolas de samba, o Carnaval do Rio de Janeiro é repleto de histórias. E uma delas vem diretamente de Madureira.
Bairro marcado por abrigar a Portela e o Império Serrano, Madureira ficou conhecido também por outra história carnavalesca. A comoção em torno de uma morte trágica rendeu sucessos popularíssimos.
A estrela que fez Madureira chorar

Na década de 1940, os palcos do Rio de Janeiro ainda davam espaço para o Teatro de Revista, gênero popular que mesclava esquetes, dança e música. Uma das pioneiras do gênero em Copacabana era a vedete Zaquia Jorge.
Mulher à frente de seu tempo, Zaquia Jorge se desquitou de seu marido para seguir trajetória artística, em uma fase na qual havia muito preconceito com o Teatro de Revista. A atriz ingressou na Companhia de Teatro Walter Pinto, e deixou sua marca nos palcos e nas telas, ao contracenar com Oscarito e Dercy Gonçalves.
Considerada a “Estrela de Madureira”, Zaquia Jorge estreitou seus laços com o bairro em 1952. A atriz deixou Copacabana e adquiriu a instalação de uma extinta loja de ferragens e ergueu o Teatro de Madureira, para 500 espectadores.
“Madureira Chorou”: vedete eternizada

A trajetória de Zaquia Jorge vinha em alta. Além do Teatro de Madureira estar em funcionamento, a atriz acabara de gravar “A Baronesa Transviada”, chanchada de Watson Macedo protagonizada por Dercy Gonçalves e que tinha no elenco nomes como Grande Otelo e Otelo Zeloni.
No entanto, a “Estrela de Madureira” teve sua vida interrompida de maneira trágica. Zaquia Jorge morreu em 22 de abril de 1957. A atriz, vedete e empresária de 33 anos não resistiu a um afogamento enquanto mergulhava na praia da Barra da Tijuca.
A comoção em torno do adeus precoce à “Estrela de Madureira” foi gigantesca no bairro. Mais de 4 mil pessoas foram ao seu velório. Então presidente da República, Juscelino Kubitschek, se fez representar por um ajudante de ordens.
A despedida a Zaquia Jorge ficou eternizada no Carnaval seguinte. Carvalhinho e Julio Monteiro compuserem “Madureira Chorou”, e o samba gravado por Joel Monteiro caiu no gosto popular. O samba fala sobre o adeus à estrela do bairro.
“Estrela de Madureira” no Carnaval… de forma bem curiosa

A “Estrela de Madureira” voltou a ser homenageada em 1975. Zaquia Abreu foi tema da Império Serrano, que a levou para a avenida no enredo “Zaquia Jorge, A Vedete do Subúrbio, Estrela de Madureira”.
A homenagem foi marcada por uma controvérsia. “Zaquia Jorge, A Vedete do Subúrbio, Estrela de Madureira” desfilou ao som do samba composto por Avarese.
Porém, um samba que perdeu a disputa do Império Serrano ganhou grande popularidade. Escrita por Acyr Pimentel e Cardoso, a música fez um grande sucesso na voz do sambista Roberto Ribeiro.
A figura de Zaquia Jorge ficou no ostracismo com o decorrer das décadas. No entanto, foi resgatada graças à biografia “Estrela de Madureira”. lançada pelo jornalista Marcelo Moutinho em 1924, no ano do centenário da vedete.