
O Rio de Janeiro já foi retratado de diversas formas em novelas, nas músicas e nos cinemas. Além disto, abrigou vários movimentos artísticos.
Porém, nem só os cartões postais da Cidade Maravilhosa ganharam projeção no mundo afora. Situações incômodas do Rio de Janeiro foram projetados. Um destes momentos aconteceu há cerca de 50 anos.
Filme de Arnaldo Jabor baseado em romance de Nelson Rodrigues resgatou mazelas do Rio de Janeiro

O diretor Arnaldo Jabor vinha de uma consagração no exterior graças a uma obra de Nelson Rodrigues. A adaptação de “Toda Nudez Será Castigada” estrelada por Darlene Glória e Paulo Porto rendeu o Urso de Prata no Festival de Berlim. Além disto, Darlene Glória venceu o Kikito de Melhor Atriz e houve Menção Especial de Trilha Sonora, para Astor Piazzolla.
Três anos depois, Jabor voltou a mergulhar em uma obra de Nelson Rodrigues: a adaptação do livro “O Casamento”. A trama é centralizada em Sabino. O rico industrial está ansioso nutre um amor incestuoso por Glorinha, sua filha de 18 anos e que vai se casar em poucos dias.
No entanto, o médico da família visita Sabino e diz que viu o futuro genro beijando outro homem na boca. A trama é contada de forma não-linear, repleta de flashbacks, abordando crimes, injustiças, adultérios e preconceitos.
Como metáfora para abordar a decadência moral e fazer uma crítica social, à moda de Nelson Rodrigues, o cineasta Arnaldo Jabor abriu o filme de uma forma incomum. “O Casamento” traz imagens de uma enchente que castigou o Rio de Janeiro em 1966.
O elenco do filme traz Paulo Porto, Adriana Prieto, Camilla Amado, Nelson Dantas, Fregolente, André Valli, Carlos Kroeber e Lícia Magna.
Enchente de janeiro de 1966 no Rio de Janeiro também foi retratada em filme baseado em livro de Nelson Rodrigues

As enchentes foram corriqueiras naquele ano. A de 10 de janeiro de 1966 considerada uma das mais graves da década de 1960 na Cidade Maravilhosa. Em alguns pontos, a altura da água chegou à marca de 1 metro.
O Centro quase paralisou, os carros chegaram ser abandonados, o comércio fechou as portas. Foram cinco dias de chuvas persistentes que atingiram mais de 60% dos bairros cariocas. O volume foi de mais de 250 mm. O governo municipal chegou a decretar calamidade pública, e a sensação foi de estado de sítio.
O registro dos períodos de enchentes mais desafiadores do Rio de Janeiro foi bastante significativo para “O Casamento”. Logo depois, ganhava as telas a cena de uma família em degradação.