
A 76ª edição do Festival de Berlim tem início nesta quinta-feira. Além da sua mostra competitiva e da disputa pelo Urso de Ouro, o evento trará um marco muito significativo.
Em mostras paralelas estão previstas exibições em primeira mão de novos filmes da safra do cinema brasileiro. A Berlinale, que dura até 22 de fevereiro, mais uma vez se consolida como um espaço para a projeção do cinema brasileiro no exterior. Os filmes ainda não têm dada para estrearem no Brasil.
Filme concorre a prêmio de Melhor Documentário no Festival de Berlim
Um dos filmes de destaque do país na Berlinale é “A Fabulosa Máquina do Tempo”. Dirigida por Eliza Capai, a obra concorre ao prêmio de Melhor Documentário. O vencedor se torna elegível para tentar uma vaga na categoria de Melhor Documentário no Oscar 2027. Além disto, recebe uma premiação em dinheiro, no valor de 40 mil euros.
Rodado no Piauí, o documentário revela as múltiplas perspectivas das meninas sobre temas que vão desde a complexidade do casamento e das diferenças de gênero até as alegrias da infância. A diretora falou sobre a empreitada:
– Nosso grande desafio foi entender como transformar o próprio filme em uma grande brincadeira. Como observar o processo de saída da miséria e questionamento do machismo estrutural a partir da perspectiva das meninas? -Como abordar temas universais como o medo da morte, Deus ou as grandes decisões da vida… Casar ou ter um cachorrinho? Pelos olhos de quem vive a grande aventura que é a infância?
A cineasta ainda destacou:
-As protagonistas do filme fazem parte da primeira geração de meninas que nasceu com o direito de comer, estudar e sonhar. Elas dividirão com o público do Festival de Berlim um olhar fresco, curioso e divertido sobre temas densos, como a saída da miséria e o machismo estrutural de nosso país – disse.
O filme é produzido pela Amana Cine em coprodução com Globo Filmes, GloboNews e Canal Brasil. Além disto, abre a Mostra Generation Kplus da Berlinale, responsável por destacar produções que abordem narrativas criativas sobre crescimento e amadurecimento
Lázaro Ramos, Conceição Evaristo e filme que traz o mesmo produtor de “Ainda Estou Aqui”: o Brasil no Festival de Berlim
Os representantes brasileiros estarão em mostras paralelas do Festival de Berlim. Há espaço para diretores conceituados e novos nomes da área cinematográfica do país.
Mostra Generation
FEITO PIPA

Diretor de “Pacarrete” e “O Melhor Amigo”, Allan Deberton apresenta no Festival de Berlim o filme “Feito Pipa”. A trama acompanha a história de Gugu, um menino de quase 12 anos que sonha em se tornar jogador de futebol. Ele vive com a avó Dilma, uma professora aposentada que o cria de forma livre e afetuosa. Quando a avó fica fragilizada, o garoto tenta esconder essa situação a qualquer custo, com medo de ser separado dela e ser obrigado a morar com o pai, que não o aceita como ele é.
Allan Deberton falou sobre a ida do filme para o Festival de Berlim:
-Um sonho acontecendo! A conquista da melhor vitrine que este filme poderia ter. Pessoalmente, é muito emocionante ver um filme que fala de desejo de pertencimento, de família e de coragem sendo acolhido num festival onde o olhar é exigente e afetuoso ao mesmo tempo. É como se a Berlinale dissesse: “essa experiência importa”. E isso dá ao filme um alcance simbólico e humano gigantesco.” – afirmou.
O elenco traz Yuri Gomes, Teca Pereira, Lázaro Ramos e Carlos Francisco.
QUATRO MENINAS

Outro filme que estará na mostra Generation é “Quatro Meninas”. Exibido anteriormente em festivais de Brasília e do Rio 2025, o trabalho dirigido por Karen Suzane e com roteiro de Clara Ferrer conta a história de Tita, Lena, Francisca e Muanda, jovens negras no Brasil de 1885.
Encarregadas dos cuidados pessoais de quatro estudantes em um internato no interior, elas sobrevivem às suas circunstâncias sonhando com a liberdade. Quando um romance impensado põe a vida de Lena em perigo, os sonhos de fuga tornam-se necessidade, e as quatro meninas decidem fugir. Para sua surpresa, suas sinhás descobrem o plano e exigem ir junto.
Ao encontrar abrigo em um casarão abandonado, o grupo enfrenta desafios de convivência. Livres das estruturas de poder tradicionais, as moças negras experimentam o poder, o amor e a possibilidade de sonhar com o futuro, enquanto as brancas resistem a aprender a ajudar nas tarefas domésticas, a cuidar de si mesmas e a encarar seus erros. Quando uma velha ameaça ressurge, no entanto, todas precisam se unir para sobreviver. O elenco de “Quatro Meninas” traz Ágatha Marinho, Alana Cabral, Dhara Lopes e Maria Ibraim estão no elenco.
PAPAYA

O Festival de Berlim 2026 ainda marca um momento inédito para o cinema brasileiro. Dirigida por Priscilla Kellen, “Papaya” se tornou a primeira animação do país a ser exibida na Berlinale. Produzida por Alê Abreu (do indicado ao Oscar “O Menino e O Mundo”), “Papaya” mostra uma semente de mamão que evita enraizar-se, pois sonha em voar e se mover pela floresta, mas aos poucos descobre a importância dos caminhos que suas raízes trazem para o seu ambiente.
Mostra Panorama
ISABEL
Voltada para o cinema autoral, político e social, a Mostra Panorama do Festival de Berlim incluirá filmes brasileiros. Um deles é “Isabel”, trabalho de Gabe Klinger protagonizado por Marina Person.
A história apresenta uma sommelière frustrada na alta gastronomia paulistana, sonha em deixar o seu atual emprego em um restaurante tradicional e abrir seu próprio bar de vinhos. Seu objetivo é ter total liberdade criativa. Quando seus planos não evoluem como o esperado, Isabel precisa decidir entre abandonar a sua ideia ou arriscar tudo para seguir num caminho independente.
O cineasta revelou que uma de sua influências foi “São Paulo Sociedade Anônima”, de Luiz Sergio Person. Além disto, falou sobre os desafios que movem a atual São Paulo:
– Foi importante para nós analisar esse ‘habitat’ da personagem, São Paulo, a cidade que tanto Marina quanto eu consideramos nossa. Ao fazer um longa aqui, pude refletir sobre gerações de familiares e amigos que sonharam em abrir novos caminhos na cidade. Entre outras coisas, nosso filme é sobre a aventura cotidiana de tentar se destacar em uma selva urbana imensa como São Paulo. É possível encontrar coerência pessoal em um lugar assim? – afirmou.
O filme ainda traz Caio Horowicz, John Ortiz, Marat Descartes e Clarisse Abujamra no elenco. A produção é de Rodrigo Teixeira, da RT Produções, um dos responsáveis pelo sucesso de “Ainda Estou Aqui”.
Teixeira não esconde seu otimismo por apresentar o filme no Festival de Berlim:
-“Isabel” é um filme muito sensível e o Gabe é muito talentoso. Estamos ansiosos para mostrar este filme em Berlim – afirmou.
SE EU FOSSE VIVO… VIVIA

A edição de 2026 do Festival de Berlim trará a première mundial do novo trabalho do cineasta André Novais Oliveira. Notabilizado por filmes como “Temporada” e “O Dia Que Te Conheci”, o diretor lança “Se Eu Fosse Vivo… Vivia”.
A trama acompanha a história de Gilberto e Jacira, um casal que atravessa cinco décadas de vida em comum. Quando Jacira é subitamente internada, Gilberto passa a vivenciar acontecimentos perturbadores, em uma espiral que atravessa o tempo e o espaço e que o conduzem a uma experiência profunda de memória e amor. O filme transita entre o drama íntimo, a comédia de costumes e elementos inesperados da ficção científica, mantendo o olhar sensível para o cotidiano, característica da obra de André Novais Oliveira.
“Se Eu Fosse Vivo… Vivia” ainda é bastante significativo: trata-se do primeiro trabalho da escritora Conceição Evaristo no cinema, em uma atuação de forte presença e delicadeza. Ela contracena com Norberto Novais Oliveira, pai do diretor e protagonista de diversos filmes recentes do cinema brasileiro. O elenco tem ainda com Jean Paulo Campos e Tainá Evaristo, que interpretam o casal em sua juventude, além de participações de Wilson Rabelo, Aisha Brunno, Demétrio Nascimento, Suellen Sampaio e Zora Santos.
A produção é da Filmes de Plástico, em coprodução com o Canal Brasil, e distribuído no Brasil pela Malute, o filme foi rodado em cidades da Região Metropolitana de Belo Horizonte, como Contagem e Belo Horizonte, além de Itaúna, Matozinhos e Pedro Leopoldo
NARCISO

O Brasil ainda está presente na Mostra Panorama com outra obra. Trata-se de “Narciso”, coprodução brasileira dirigida pelo paraguaio Marcelo Martinessi e produzida pela cineasta carioca Julia Murat.
Ambientada em 1958, a trama acompanha Narciso, jovem carismático que retorna de Buenos Aires com o rock ’n’ roll nas veias e que se torna uma sensação musical e símbolo da liberdade sob um regime militar sufocante. Porém, após seu show final, o jovem é encontrado morto. No elenco estão Diro Romero, Manuel Cuenca, Mona Martinez e o renomado Nahuel Perez Biscayart. O filme tem coprodução de Brasil, Paraguai, Uruguai, Alemanha, Portugal, Espanha e França.
Mostra Forum

O Brasil ainda tem um representante na Mostra Forum do Festival de Berlim. O espaço é destinado a narrativas mais experimentais e propostas formais.
A obra selecionada é “Fiz Um Foguete Imaginando Que Você Vinha”. Filme de estreia de Janaína Marques como diretora, ele se constrói como um road movie do inconsciente, no qual a imaginação surge como ferramenta de sobrevivência e reconciliação.
A história se desenvolve como um retrato íntimo de uma mulher convocada a revisitar sua própria história quando já não consegue se reconhecer nela. Diante da dificuldade de acessar uma memória feliz, a protagonista Rosa (vivida por Verônica Cavalcanti) mergulha numa busca interior que se torna a própria narrativa do longa. Entre o real e o imaginado, a realidade começa a ceder espaço ao sonho, ao delírio e à memória, uma jornada íntima em que Rosa reencontra a mãe (interpretada por Luciana Souza) e a transforma em parceira de estrada. A previsão é de que o filme chegue ao circuito em setembro.
Mostra Perspectives

Nova seção do Festival de Berlim, a Mostra Perspectives contará com presença brasileira. Dedicada a cineastas emergentes de todo o mundo, ela traz “Nosso Segredo”, estreia da atriz e dramaturga Grace Passô como diretora.
Grace falou sobre a chance de mostrar o filme no exterior:
-Estou feliz de estar num grande festival como a Berlinale. Este é um filme muito especial pra mim, e quem conhece o que venho criando há anos, sabe. Acho um momento também especial para a produção cinematográfica de Belo Horizonte, que marca uma presença histórica este ano no festival e também porque nós, brasileiras, estamos empolgadas com as repercussões de grandes cineastas brasileiros lá fora. Como pareceu dizer Kleber (Mendonça Filho) no discurso do Globo de Ouro, é um momento de empolgar as criações cinematográficas no Brasil – afirmou.
A atriz e dramaturga contou o que a moveu a contar a história de “Nosso Segredo”
-A história que o filme conta me ajuda a refletir sobre o que está por trás do que não é dito nas convivências afetivas, na dimensão do luto e das ausências. Essa história é uma espécie de fonte para mim, assim como as famílias o são para nós – disse.
A trama parte de uma peça de sua autoria: “Amores Surdos”.
– “Nosso Segredo” conta a história de uma família tentando reconstruir sua rotina após uma grande perda. Enquanto cada um foge do luto à sua maneira, o filho caçula guarda um segredo capaz de fazê-los enfrentar o momento e, juntos, descobrir um novo caminho – e destacou:
-Sempre imaginei a câmera perdendo-se pelos cômodos da casa, como se aquela família procurasse alguma resposta para a dimensão do amor e da dor da perda. Essa casa é a metáfora daquilo que está prestes a vazar dos personagens da família deste filme – completou.
O elenco traz Robert Frank, Ju Colombo, Efraim Santos, Jéssica Gaspar, Flip, Marisa Revert, Juan Queiroz e participações especiais de Mateus Aleluia, Tássia Reis, Gláucia Vandeveld e Nanego Lira.
Indicado ao Urso de Ouro, filme de Karin Aïnouz tem trailer divulgado

O Brasil terá um representante na disputa pelo Urso de Ouro, principal competição do Festival de Berlim. No entanto, apenas na categoria de direção.
Conhecido por obras como “Madame Satã”, “A Vida Invisível” e “Motel Destino”, Karim Aïnouz apresenta “Rosebush Pruning”. Trata-se de uma ousada sátira contemporânea sobre as contradições da família tradicional. Ambientado em uma mansão na Catalunha, o filme acompanha uma família americana privilegiada e excêntrica, envolta em conflitos absurdos.
Os irmãos Jack, Ed, Anna e Robert vivem isolados do mundo, usufruindo da fortuna que herdaram. Enquanto isso ignoram as demandas do pai cego e buscam amor e acolhimento uns nos outros, vivendo às voltas com as mais recentes roupas de grife. Quando Jack, o irmão mais velho e eixo central da família, anuncia que vai abandonar o pai e os irmãos para morar com a namorada Martha, os laços de sangue implodem. Ed começa a descobrir a verdade por trás da misteriosa morte da mãe. Mentiras começam a vir à tona, a família passa a se desintegrar brutalmente e os irmãos entram em uma espiral de violência.
A equipe do filme didulgou o trailer da obra dirigida por Karim: