
A última semana do mês de julho marca um momento muito simbólico. Chega nesta quinta-feira ao circuito “Não Sei Viver Sem Palavras”, documentário que conta a trajetória do escritor Ignácio de Loyola Brandão.
O filme, dirigido por seu filho André Brandão, chega aos cinemas em um momento bastante significativo. Nesta sexta-feira, 31 de julho, o escritor celebra seus 90 anos.
Saiba detalhes da obra de Ignácio de Loyola Brandão
Imortal da Academia Brasileira de Letras e autor de clássicos como “Zero”, “Dentes Ao Sol” e “Não Verás País Nenhum”, Ignácio de Loyola Brandão inscreveu seu nome na literatura brasileira com romances, crônicas, livros infanto-juvenis, biografias, relatos de viagens, peças de teatro, entre tantos outros textos.
O escritor ainda recebeu cinco prêmios Jabuti. Em 2000, por “O Homem Que Odiava Segundas-Feiras”, na categoria Contos e Crônicas. No ano de 2008, “O menino que vendia palavras” foi premiado nas categorias Infantil e Livro do Ano de Ficção. Em 2015,com “Os Olhos Cegos dos Cavalos, venceu a categoria Juvenil, e “Se for pra chorar que seja de alegria” foi premiado em Contos e Crônicas.
Em 2016, a Academia Brasileira de Letras concedeu o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra
O documentário resgata de forma bastante pessoal essa trajetória a partir de depoimentos do escritor e um rico material de arquivo.
O filme nasceu na pandemia, quando, vivendo novamente com seu pai, André começou a filmar despretensiosamente o cotidiano deles. Depois, percebeu que desse material poderia surgir um documentário.
-O filme é muito caseiro, feito a poucas mãos. Fizemos oito entrevistas de duas a três horas cada, principalmente na casa dele, mas também no bairro Praça Roosevelt, onde morou por dez anos quando chegou em São Paulo, na biblioteca municipal e na estação de trem de Araraquara – lugares importantes na história dele – resumiu o diretor.
André, que teve uma longa carreira como fotógrafo, e fez uma transição para o cinema em 2015, conta que muito do material de arquivo do filme veio do próprio Ignácio de Loyola Brandão. O artista mantém bastante organizada uma rica coleção de materiais:
-Atrelado ao escritório dele tem um pequeno quartinho, com muitas caixas, e cada uma tem muitos envelopes dentro. A maioria dos envelopes tem fotos, mas tem também uma boa quantidade com cartões postais, programas de peças, de museus, exposições etc. E cada envelope tem um texto escrito do lado de fora , explicando, em detalhes, o que tem lá dentro – destacou.
Ignácio de Loyola Brandão surge de maneira intimista

O cinesta contou que encontrou nesse arquivo 38 rolos de Super-8, todos filmados pelo escritor Ignácio de Loyola Brandão durante a década de 1970. Essas imagens acabaram se tornando uma parte importante do filme. Numa camada mais íntima, são imagens da família, de São Paulo, dele próprio, Araraquara, Berlim, até do nascimento do cineasta.
-Durante o meu nascimento, nos dias em que ele ficou na maternidade acompanhando a minha mãe, ele escreveu um pequeno conto chamado ‘A Montanha Mágica – O Nascimento de André- contou o diretor.
– Durante a pesquisa para o filme reencontrei esse conto em uma caixa, e encontrei também muitas cartas que ele me escreveu quando eu morei fora do Brasil, entre 1991-1997. Esse material acabou entrando como falas, na minha voz e na voz dele-, relembra.
O realizador explica, também, que “Não Sei Viver Sem Palavras” foi uma construção coletiva. Era importante trazer olhares de fora, que não tivessem intimidade com o protagonista e o material filmado, como seu antigo sócio Ricardo Carioba, que é codiretor do filme, Moraga, que montou o filme, e os roteiristas André Collazzo e Vivian Brito.
O diretor confessa que sempre teve uma relação bem próxima com o pai, mas fazer o filme uniu-os ainda mais.
-Sinto que esse filme de fato também é um pouco dele. O fato de que ele sempre quis fazer um filme, mas nunca fez, e nesse filme, além de personagem, ele também filmou uma parte importante do material (o Super-8), e o texto é inteiro dele, sejam as entrevistas, sejam os trechos de livros, faz com que esse filme seja também em parte dele. É um pouco uma simbiose, uma passagem de bastão, é o meu primeiro filme, uma releitura da vida e da obra dele partindo de textos e algumas imagens dele, mas com o meu ponto de vista. É algo sutil mas muito forte ao mesmo tempo, difícil explicar – afirmou André.