
A data de 31 de março ficou marcada de maneira muito obscura no calendário brasileiro. Em 1964, teve início o golpe que instaurou uma Ditadura Militar.
A Ditadura Militar permaneceu no poder durante longos 21 anos, deixando um rastro de repressão, censura e suspensão de direitos políticos. Ao longo das décadas, o cinema brasileiro vem deixando em filmes lembranças destas páginas infelizes. Veja 10 obras significativas sobre esta época.
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Pra Frente Brasil (1982) – corajoso filme durante a Ditadura

O ano de 1982 (um período de leve abertura política) trouxe um dos filmes mais corajosos feitos sobre a Ditadura. Dirigido por Roberto Farias, “Pra Frente Brasil” é ambientado na década de 1970 e conta a história de Jofre, um homem pacato e apolítico que, ao aceitar a carona de um desconhecido para dividir um táxi, é confundido com um terrorista e levado por um grupo de tortura.
Depois de receber os prêmios de Melhor Filme e de Melhor Montagem no Festival de Gramado em 1982, “Pra Frente Brasil” teve desdobramentos negativos internamente. A chefe da Divisão de Censura da Polícia Federal, Solange Hernandes, não liberou sua exibição. Os militares não gostaram do enredo, e Celso Amorim se demitiu do cargo de presidente da Embrafilme.
A estatal impediu que “Pra Frente Brasil” representasse o Brasil no Festival de Cannes, por mais que fosse elogiado pela crítica. Foram oito meses de impasse, até que o filme conseguisse sua liberação sem cortes em 1983. O elenco da obra de Roberto Farias traz Reginaldo Faria (autor do argumento), Antônio Fagundes, Natália do Valle, Elizabeth Savalla, Carlos Zara, Paulo Porto, Luiz Armando Queiroz e Cláudio Marzo.
Onde assistir: Claro TV (para alugar)
Nunca Fomos Tão Felizes (1984) – lacunas na Ditadura

Dois anos depois, as sequelas da Ditadura Militar voltaram a traçar a trama de um filme. Trata-se de “Nunca Fomos Tão Felizes”, filme de estreia de Murilo Salles.
Inspirada no conto “Alguma Coisa Urgentemente”, de João Gilberto Noll, a obra ambientada na década de 1970 traz a relação de Carlos, um militante de esquerda, com seu filho Gabriel. Carlos retira o menino no internato no qual vivia desde que a mãe do garoto havia morrido, e leva seu filho para um grande apartamento na Avenida Atlântica, em Copacabana.
No apartamento, Gabriel começa a conhecer um pouco mais da história de vida do pai ausente. Cláudio Marzo e Roberto Bataglin protagonizam a trama, que tem no elenco Suzana Vieira, Ênio Santos, Antônio Pompeo e Fábio Junqueira.
Onde assistir: Brasiliana TV (Claro TV)
Que Bom Te Ver Viva (1989) – marcas da tortura nas mulheres

Presa e torturada durante a Ditadura Militar, Lucia Murat é uma das diretoras que se tornaram mais potentes para recordar este período. Um de seus melhores filmes vem de 1989, “Que Bom Te Ver Viva”, mistura de drama e documentário.
O filme tem Irene Ravache como protagonista em textos viscerais. Suas cenas são intercaladas por depoimentos de oito mulheres que, ao serem presas durante a Ditadura Militar, sobreviveram a tipo de tortura e violência.
Onde assistir: Prime Video
Lamarca (1994) – um dos líderes da luta armada

A lembrança da resistência à Ditadura Militar por meio da luta armada voltou a ser retratada em 1994 no cinema. Bem-sucedido na crítica e no público, “Lamarca”, de Sérgio Rezende, levou para as telas a história do capitão Carlos Lamarca.
Lamarca foi um militar que, em 1969, se tornou desertor e passou a ser um dos comandantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Baseado no livro “Lamarca, O Capitão da Guerrilha”, de Emiliano José e Miranda Oldack, o filme mostra a trajetória de Lamarca desde o período como militar até seus últimos dias como guerrilheiro.
Além de Paulo Betti no papel-título, estão no elenco Carla Camuratti, Deborah Evelyn, Roberto Bomtempo, Ernani Moraes e Nelson Dantas.
Onde assistir: Brasiliana TV (Claro TV)
O Que É Isso, Companheiro? – filme indicado ao Oscar

No ano de 1997, um episódio muito forte da resistência armada contra a Ditadura foi resgatado pelo cinema. Baseado no livro homônimo de Fernando Gabeira, “O Que É Isso, Companheiro?”, de Bruno Barreto, contou o sequestro do embaixador americano Charles Elbrick no ano de 1969.
A ação, feita pelos grupos Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e Ação Libertadora Nacional (ALN) sequestrou o embaixador em troca da libertação de 15 presos políticos e da leitura de um manifesto em rede nacional. A trama se passa nos quatro dias que o embaixador ficou sequestrado em uma casa.
O elenco tem Pedro Cardoso, Fernanda Torres, Luiz Fernando Guimarães, Selton Mello, Caio Junqueira, Matheus Nachtergaele, Cláudia Abreu, Nelson Dantas, Marco Ricca, Othon Bastos e Fernanda Montenegro. A obra foi indicada ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 1998.
Onde assistir: Globoplay
Zuzu Angel (2006) – a busca da mãe pelo filho mártir

O cineasta Sérgio Rezende voltou seus olhos mais uma vez para a amargura do regime militar no ano de 2006. Ele lançou “Zuzu Angel”, no qual contou o drama da estilista que, em meio a uma trajetória consagradora, viu seu filho Stuart Angel desaparecer e ser morto pelos militares.
O filme mostra a luta de Zuzu Angel por buscar notícias de seu filho e por falar sobre as arbitrariedades que estavam acontecendo no país. Além de uma gravação inédita de Chico Buarque para “Angélica” (parceria entre Chico e Miltinho), o filme traz no elenco Patrícia Pillar como Zuzu Angel, Daniel Oliveira como Stuart Angel e nomes como Leandra Leal, Luana Piovani e Regiane Alves.
Onde assistir: Prime Video
O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias (2008) – o filme que ficou na pré-lista do Oscar

O cinema voltou a mostrar como vidas foram separadas pela Ditadura Militar no singelo “O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias”. Dirigido por Cao Hamburger, o filme é ambientado no ano de 1970 e parte da história de Mauro.
O garoto de 7 anos é deixado pelos pais (que viajaram por tempo indeterminado) na casa do seu avô no bairro do Bom Retiro, em São Paulo. Porém, o avô morre e o jovem acaba aos cuidados de um senhor judeu. A trama, que mostra a Ditadura Militar sob o ponto de vista de uma criança, ficou na pré-lista (de 15 melhores) do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.
O elenco traz Michel Joelsas, Germano Haiut, Daniela Piepszyk, Caio Blat, Liliana Castro, Simone Spoladore e Paulo Autran.
Onde assistir: Netflix
Batismo de Sangue (2007) – a perseguição a religiosos

A perseguição a religiosos na Ditadura também foi resgatada no cinema brasileiro. O ponto principal é em “Batismo de Sangue”, de Helvécio Ratton.
Baseado no livro homônimo de Frei Betto, o filme lançado em 2007 mostra a história de cinco frades dominicanos que, movidos por ideais cristãos, passam a apoiar o grupo guerrilheiro da Ação Libertadora Nacional (ALN), liderado por Carlos Marighella. Os religiosos são perseguidos e posteriormente presos e torturados sob acusação de serem comunistas.
O filme traz Caio Blat, Daniel de Oliveira, Cássio Gabus Mendes, Ângelo Antônio, Marcélia Cartaxo e Marku Ribas no elenco.
Onde assistir: Prime Video
Marighella (2019) – guerrilheiro retratado em filme de Wagner Moura

Indicado ao Oscar de Melhor Ator e vencedor do Globo de Ouro de Melhor Ator em Drama por “O Agente Secreto”, Wagner Moura foi responsável por levar para as telas a história de um dos líderes na luta armada contra a Ditadura Militar.
Finalizado em 2019, “Marighella” é ambientado na trajetória de Carlos Marighella durante o ano de 1969 a trajetória. O guerrilheiro tenta articular uma resistência de luta armada contra as barbáries cometidas durante a Ditadura, em especial a perseguição implacável de um policial.
Baseado no livro “Marighella – O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo”, de Mário Magalhães, o filme foi cercado por controvérsias antes mesmo de estrear. Previsto para estrear em 2019, “Marighella” passou por sucessivos entraves burocráticos na Ancine, além de publicações inflamadas de pessoas aliadas do governo Bolsonaro.
“Marighella” chegou ao circuito em novembro de 2021, cerca de dois anos depois do previsto. Além de Seu Jorge no papel-título, estão no elenco Bruno Gagliasso, Humberto Carrão, Luiz Carlos Vasconcelos, Bella Camero, Adriana Esteves e Herson Capri. O filme dividiu opiniões.
Onde assistir: Globoplay
Ainda Estou Aqui (2024) – o Brasil vence o Oscar

Uma história que resgata cicatrizes da Ditadura marcou época no cinema brasileiro. Baseado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, “Ainda Estou Aqui” conta a trajetória de Eunice Paiva.
Sua rotina pacata de dona de casa sofre uma reviravolta depois que seu marido, o deputado Rubens Paiva, é levado por militares à paisana e desaparece. Eunice, cuja busca pela verdade sobre o destino de seu marido se estenderia por décadas , passa por uma reviravolta e traçar um novo futuro para si e seus filhos.
Além de se tornar, em 2025, a primeira produção a vencer o Oscar de Melhor Filme Internacional, a obra de Walter Salles levou Fernanda Torres a vencer o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Drama. “Ainda Estou Aqui” venceu mais de 80 prêmios em sua trajetória.
Onde assistir: Globoplay